FASE PLENA

“A vida muda. Você também. E ainda há muito por viver.” – Um espaço para compreender o que você vive, se reencontrar e descobrir os caminhos que ainda podem existir.

FASE PLENA

“A vida muda. Você também. E ainda há muito por viver.” – Um espaço para compreender o que você vive, se reencontrar e descobrir os caminhos que ainda podem existir.

Espiritualidade & Propósito

Espiritualidade no cotidiano: encontrar Deus nas pequenas coisas

Durante muito tempo, Deus esteve presente nas palavras que eu repetia, mas eu ainda não sentia que tinha um relacionamento com Ele.

Minha família era católica, mas raramente íamos à igreja. No máximo, havia uma oração decorada antes de dormir.

Estudei em escola de freiras e precisava rezar pelo menos umas três vezes por dia. Eu conhecia as palavras, sabia acompanhar as orações, mas não havia um sentimento envolvido. Fazia parte da rotina da escola, não de uma conexão que eu reconhecesse dentro de mim.

Hoje, minha relação com Deus é diferente.

Não costumo fazer aquelas orações decoradas da infância. Gosto de agradecer quando acordo, de abençoar a mim mesma e afirmar que terei um bom dia. À noite, agradeço pelo que vivi e peço um bom descanso.

E, em alguns momentos, simplesmente paro, respiro, sinto meu corpo e percebo o ambiente. Não preciso dizer muita coisa. Procuro reconhecer a presença Dele comigo.

Foi assim que comecei a compreender a espiritualidade no cotidiano: como uma relação que pode acompanhar a vida que já está acontecendo.

Minha busca por Deus começou como uma busca por sentido

Depois que minha irmã se casou, ela se tornou evangélica. Meus pais também passaram a frequentar a igreja Batista.

Eles me convidavam e tentavam me convencer a ir. Mas eu não sentia aquele chamado. Algumas atitudes que eu via naquele ambiente também não me pareciam coerentes com o que era pregado, e isso aumentava meu afastamento.

Essa foi a minha experiência com aquele contexto. Não é uma conclusão sobre todas as igrejas ou sobre quem encontra na religião uma forma verdadeira de viver a fé.

Naquele momento, eu simplesmente não me reconhecia ali.

Anos depois, antes de receber o diagnóstico de câncer, comecei uma busca por algum sentido. Meu casamento estava falido, eu estava em dívidas e me sentia desiludida com o trabalho.

Procurava algo novo a que pudesse me dedicar, alguma forma de servir que tivesse significado para mim. Nessa procura, fui encontrando Deus.

Não consigo apontar um instante exato em que tudo mudou. Foi um caminho de aproximação, de perguntas e de uma percepção que foi ganhando espaço na minha vida.

Deus deixou de estar apenas nas palavras que eu havia aprendido a repetir. Comecei a procurá-Lo também na maneira de viver.

Fazer como se fosse para Deus

Uma pessoa me disse algo que permaneceu comigo: se eu fizesse tudo como se fosse para Deus, de fato estaria fazendo para Ele, porque Deus está em tudo.

Essa ideia passou a orientar meu olhar.

Hoje, procuro perceber Deus nas coisas e nas pessoas, porque é assim que acredito na presença Dele. Não significa que eu consiga manter essa consciência o dia inteiro. Mas é uma direção à qual tento voltar.

A partir dessa compreensão, uma tarefa comum pode ganhar outro significado.

Preparar uma refeição pode ser uma forma de cuidado. Fazer meu trabalho com atenção pode ser uma maneira de servir. Escutar alguém sem tratar sua fala como uma interrupção pode ser uma expressão de respeito.

Não preciso transformar cada gesto em um ritual elaborado. Posso apenas me perguntar: como quero estar presente no que estou fazendo?

Também não entendo essa ideia como uma exigência de perfeição. Fazer algo para Deus não deveria se tornar mais uma cobrança para nunca errar, nunca cansar ou estar sempre disponível.

Há dias em que fazemos o possível. E o possível também faz parte da vida.

A pessoa que me ajudou a perceber o ordinário

Uma pessoa teve muita importância nesse processo: a Jana Costa.

Na minha percepção, ela foi enviada para espelhar e iluminar o caminho. Com ela, aprendi a sentir e reconhecer a beleza das pequenas coisas.

Como ela diz: “Não existe o extraordinário sem o ordinário.”

Essa frase me ajuda a olhar para aquilo que, de tão familiar, pode passar despercebido.

A gente pode esperar uma grande resposta, um acontecimento marcante ou uma experiência muito diferente para sentir que algo espiritual aconteceu. Enquanto isso, o dia comum continua acontecendo ao nosso redor.

O despertar, a comida sendo preparada, uma conversa, o trabalho, o cuidado com a casa, o momento de deitar.

Tenho aprendido a procurar significado também aí.

Não porque todas as tarefas sejam agradáveis ou porque a rotina precise parecer bonita o tempo inteiro. Mas porque, para mim, a presença de Deus não depende de um cenário especial.

Ao acordar, antes de saber como o dia será

Bíblia aberta, caneca verde, caderno e lápis sobre uma mesa de madeira.

Uma das formas mais simples que encontrei de viver essa relação é agradecer quando acordo.

Gosto de me abençoar e afirmar que terei um bom dia pela frente.

Isso expressa a maneira como desejo começar. Não é uma garantia de que nada difícil acontecerá, nem uma tentativa de controlar tudo o que virá.

Posso começar com confiança e ainda encontrar problemas. Posso agradecer e, algumas horas depois, estar preocupada. Uma coisa não cancela a outra.

Se você quiser experimentar, pode escolher palavras que façam sentido para a sua fé. Algo breve, sem a obrigação de seguir uma fórmula:

“Deus, obrigada por este dia. Que eu encontre direção para viver o que estiver diante de mim.”

Essa é apenas uma sugestão de oração. Você pode falar de outro jeito (do seu jeito), usar uma oração conhecida ou não encontrar palavras naquele momento.

A intimidade não precisa ser medida pelo tamanho da fala.

Na cozinha, no trabalho e no cuidado com a casa

A espiritualidade no cotidiano pode acompanhar atividades que já ocupam nosso tempo.

Na cozinha, talvez haja espaço para agradecer pelo alimento ou lembrar de quem vai compartilhar aquela refeição. Não é necessário dedicar uma intenção a cada ingrediente, nem preparar algo elaborado para que o gesto tenha valor.

No trabalho, pode aparecer na honestidade, na atenção ao que foi combinado e na forma de tratar as pessoas. Às vezes, servir também envolve reconhecer um limite, pedir ajuda ou admitir que não sabemos alguma coisa.

Em casa, cuidar do ambiente pode ser um gesto de carinho com quem vive ali. Mas uma casa desorganizada não significa ausência de fé, assim como uma casa impecável não demonstra maior proximidade com Deus.

Não quero transformar tarefas domésticas em uma medida de valor espiritual.

O cuidado também pode estar em deixar algo para depois, dividir uma responsabilidade e reconhecer o próprio cansaço.

O convite é encontrar uma intenção possível dentro da vida real, sem acrescentar uma camada de obrigação a tudo o que já precisamos fazer.

Perceber a presença de Deus no meio do dia

Em alguns momentos do meu dia, gosto de parar e respirar.

Sinto meu corpo, observo o ambiente e procuro perceber Deus comigo. Não faço isso para alcançar um estado especial ou receber uma resposta imediata.

É uma forma de lembrar da relação que estou cultivando.

Esse reconhecimento pode acontecer durante uma atividade ou entre uma tarefa e outra. Não exige que eu me afaste de tudo por muito tempo.

Uma prática possível é escolher um momento comum, como terminar uma refeição ou chegar em casa, e dedicar alguns instantes a três gestos:

  1. Perceber onde você está. O ambiente, seu corpo e o que está acontecendo naquele momento.
  2. Reconhecer o que sente. Sem precisar trocar o cansaço por gratidão ou a preocupação por calma.
  3. Dirigir-se a Deus do seu jeito. Com uma frase, um agradecimento, um pedido ou apenas a intenção de estar com Ele.

Faça isso em uma situação segura, sem desviar a atenção de atividades que precisam dela.

A proposta não é criar um exercício que você tenha de cumprir todos os dias. É oferecer uma possibilidade de encontro dentro da rotina.

Nos dias difíceis, entregar é mais desafiador

Mulher de cabelos curtos com as mãos unidas e os olhos fechados em um jardim.

Confesso que, nos dias difíceis, essa relação fica mais desafiadora.

Minha cabeça fica tão agitada que perco um pouco a noção de que posso entregar nas mãos de Deus e descansar. Tento lidar com tudo e demoro a lembrar que posso pedir ajuda.

Ultimamente, tenho conseguido me sentir mais ancorada e reconhecer que não estou sozinha.

Isso ainda é um processo. Não quero escrever como se confiar fosse sempre simples para mim.

Uma passagem que conversa com esse aprendizado está em 1 Pedro 5:7:

“Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês.”
— 1 Pedro 5:7, Nova Almeida Atualizada. Bíblia Online

Recebo essas palavras como um convite ao cuidado e à confiança.

Para mim, entregar não precisa significar abandonar o que posso fazer. Posso buscar uma solução, conversar com alguém e tomar uma providência, enquanto reconheço que não consigo controlar todos os resultados.

Às vezes, a oração possível é curta:

“Deus, está difícil. Me ajuda a atravessar este dia.”

Essa frase também é apenas uma sugestão. O que importa aqui é a possibilidade de falar com sinceridade, sem precisar organizar todos os sentimentos antes.

Gratidão não precisa esconder o que dói

Agradecer faz parte da minha maneira de me relacionar com Deus, especialmente ao acordar e antes de dormir.

Mas não quero tratar a gratidão como uma exigência de encontrar beleza em tudo imediatamente.

Há situações que doem. Há perdas, preocupações e perguntas sem resposta. Reconhecer algo bom no dia não obriga ninguém a dizer que o restante está bem.

Podemos agradecer pelo apoio recebido e continuar tristes. Podemos reconhecer uma oportunidade e ainda sentir medo. Podemos ter fé e precisar de companhia.

Não é necessário transformar sofrimento em uma prova de evolução espiritual.

Na minha caminhada, quero cultivar uma relação com Deus em que caiba a verdade do que estou vivendo, e não apenas a versão mais serena que eu gostaria de apresentar.

À noite, agradecer e pedir descanso

Antes de dormir, gosto de agradecer pelo dia e pedir que tenha um bom descanso.

É um jeito de encerrar aquele período e reconhecer o que vivi, sem precisar fazer um balanço perfeito.

Nem todo dia termina com tudo resolvido. Algumas pendências continuam, e algumas respostas ainda não chegaram.

Se quiser fazer desse momento uma pequena conversa com Deus, você pode lembrar de algo que recebeu, nomear o que está pesando e pedir ajuda para o dia seguinte.

Não precisa procurar uma lista de acontecimentos extraordinários. Talvez tenha havido uma conversa importante, uma tarefa concluída ou um cuidado que você conseguiu oferecer a si mesma.

E, se naquele dia só conseguir dizer “estou cansada”, não é necessário enfeitar a frase.

A fé que acompanha a vida que temos

Minha relação com Deus não começou como uma rotina perfeita de oração.

Houve palavras repetidas sem sentimento, afastamento, perguntas e uma busca por sentido que começou antes do diagnóstico de câncer.

Hoje, procuro reconhecê-Lo no que faço e nas pessoas com quem encontro. Agradeço, me abençoo, peço descanso e, em alguns momentos, apenas percebo Sua presença.

A Jana me ajudou a enxergar a beleza do ordinário. Continuo aprendendo a olhar para ele, inclusive quando o dia está difícil.

Não quero esperar que a vida esteja organizada para cultivar essa relação. Quero que ela possa fazer parte da vida que existe agora, com trabalho, responsabilidades, dúvidas e pequenos momentos de cuidado.

E você, como percebe Deus no seu cotidiano? Existe um gesto, uma atividade ou uma forma de conversar com Ele que faz sentido para você? Se quiser, compartilhe nos comentários.

Para continuar essa reflexão, leia também “O silêncio interior desaparece antes de você perceber que se perdeu”, em que conversamos sobre pausa, discernimento e excesso de estímulos.

Viviane Lyrio

Viviane Lyrio

Sou Viviane Lyrio, fisioterapeuta e mulher 50+. Depois de atravessar o câncer de mama, a menopausa, o divórcio e outros recomeços, criei o Fase Plena para compartilhar experiências, informação e acolhimento. Escrevo sobre saúde, autocuidado, relacionamentos e espiritualidade, unindo conhecimento e vida real para ajudar outras mulheres a viver essa fase com mais consciência e esperança.

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