
Movimento com alma: como encontrar prazer em se movimentar depois dos 40
Tem dias em que eu quero caminhar ouvindo apenas o que acontece ao meu redor.
Perto da minha casa existe um parque com muitas árvores e um rio que corre próximo. Gosto de estar ali e escutar a vida acontecendo: os passarinhos, as crianças, os carros passando. Nem sempre preciso de música. Às vezes, quero apenas caminhar e perceber aquele lugar.
Em outros dias, coloco os fones e a experiência muda completamente. A música começa, meus passos acompanham e eu me sinto literalmente dentro de um clipe musical.
E, quando estou sozinha em casa, me acabo de dançar. Sem pensar em coreografia, sem tentar acertar passos, sem precisar apresentar nada para ninguém.
Esses são alguns dos momentos em que encontro prazer no movimento.
Mas isso não significa que minha relação com o corpo esteja resolvida. Ainda me cobro. Ainda preciso lembrar que cuidar de mim não pode se resumir à tentativa de emagrecer.
É sobre essa mistura de prazer, dificuldade e aprendizado que quero conversar. Porque encontrar uma atividade de que gostamos pode começar de um jeito bem mais simples do que imaginamos — e sem exigir que o nosso corpo mude primeiro.
O que eu chamo de movimento com alma
Para mim, movimento com alma é aquele em que consigo estar presente.
Pode acontecer no Pilates, em uma caminhada ou dançando uma música na sala. Não depende de uma modalidade específica. Depende também da maneira como vivo aquele momento.
É perceber o ambiente enquanto caminho. Prestar atenção no corpo durante um exercício. Deixar uma música conduzir meus movimentos sem ficar avaliando se estão bonitos.
A palavra “alma”, aqui, tem esse sentido de presença e significado. Não é o nome de uma técnica nem uma promessa de tratamento. É uma forma de falar de algo que pode ser difícil colocar em palavras: a experiência de me movimentar e sentir que aquele momento também é meu.
Isso pode existir em uma academia, em uma aula em grupo ou em uma prática individual. Uma pessoa encontra prazer levantando pesos. Outra prefere nadar. Outra gosta de dançar ou caminhar acompanhada.
Não precisamos escolher a mesma coisa. Precisamos ter espaço para descobrir.
Quando a vontade de emagrecer passa na frente da escuta
Desde o início do tratamento, ganhei quase dez quilos. Faço bloqueio hormonal e ainda estou aprendendo a perceber os sinais do meu corpo nesse contexto.
No início do ano, a cobrança para emagrecer ficou muito forte. Tentei voltar a correr porque acreditava que isso me ajudaria a perder peso mais rápido. Nessa tentativa, acabei lesionando a coluna e o quadril.
Não conto isso como uma história de superação concluída. Ainda estou no processo de não me cobrar tanto nesse sentido.
Mesmo sendo fisioterapeuta, também vivo conflitos com meu corpo. Conhecer o movimento profissionalmente não me torna imune à pressa, à comparação ou à insatisfação com a própria imagem.
Essa experiência me faz prestar atenção à pergunta que vem antes do exercício: por que estou escolhendo fazer isso agora?
Quero experimentar uma atividade? Gosto dela? Ela faz sentido para minha saúde e para o momento que estou vivendo? Ou estou tentando acelerar uma mudança no espelho a qualquer custo?
Ter um objetivo relacionado ao peso não precisa ser motivo de vergonha. Mas, quando ele ocupa todo o espaço, podemos deixar de perceber outras necessidades e outros motivos para nos movimentar.
Você não precisa amar a atividade que todo mundo ama
Às vezes, escolhemos uma modalidade porque uma amiga faz, porque está na moda ou porque alguém disse que ela é a melhor.
Experimentar pode ser interessante. Permanecer por obrigação é outra conversa.
Se você não gosta de uma aula, vale perceber o que incomodou. Foi o ritmo? A música? O ambiente? A sensação de estar sendo observada? O horário? A intensidade? A forma como a atividade foi conduzida?
Nem sempre precisamos descartar uma modalidade inteira depois de uma experiência ruim. Talvez outra turma ou outra abordagem faça diferença. Em outros casos, a escolha simplesmente não combina conosco.
Também não precisamos opor dança e academia, como se uma fosse liberdade e a outra fosse castigo. Há pessoas que gostam da organização de um treino e outras que preferem movimentos mais livres.
O prazer pode estar no esforço, no aprendizado, na companhia ou no momento de silêncio. Não tem uma aparência única.
Possibilidades para experimentar sem transformar tudo em uma meta
Se você ainda não sabe do que gosta, pode começar pela curiosidade. A ideia é fazer uma experiência pequena, observar como se sente e decidir o próximo passo.
Caminhar ao ar livre
A caminhada de que eu gosto tem muito a ver com o lugar.
As árvores, o rio e os sons do parque fazem parte da experiência. Não estou apenas cumprindo um percurso: estou passando por um ambiente que gosto de perceber.
Você pode experimentar um trajeto conhecido, seguro e compatível com suas condições. Talvez uma praça, uma rua tranquila ou um espaço próximo de casa.
Não precisa começar com uma distância determinada. Um trecho curto pode servir para descobrir se você prefere caminhar sozinha, acompanhada, ouvindo música ou prestando atenção ao entorno.
Se usar fones, mantenha atenção à circulação de pessoas e veículos. O prazer de ouvir uma música pode coexistir com o cuidado com o caminho.
Dançar sem coreografia
Quando danço sozinha em casa, não estou tentando reproduzir uma apresentação.
Posso repetir um movimento, mudar de ritmo ou simplesmente acompanhar a parte da música de que mais gosto. Ninguém está contando passos.
Se isso despertar sua curiosidade, escolha uma música e libere um espaço seguro, sem objetos ou tapetes que possam atrapalhar. Movimente-se de uma maneira confortável para você. Não é necessário saltar, girar ou acompanhar toda a velocidade da música.
Você também pode fazer movimentos sentada, caso essa seja uma opção mais adequada naquele momento.
E, se preferir aprender passos, tudo bem. A liberdade também inclui gostar de uma coreografia.
Experimentar uma aula de dança

Samba, dança de salão, dança circular, dança do ventre e outras modalidades oferecem experiências diferentes.
Em vez de escolher apenas pelo que dizem que cada uma faz com o corpo, considere o que desperta sua vontade: a música, a companhia, a expressão ou a possibilidade de aprender.
Procure uma turma iniciante e converse com quem conduz a aula sobre o seu momento. Você não precisa chegar sabendo.
Também não precisa comprar roupas ou acessórios antes de descobrir se gosta da prática. Primeiro, conheça o ambiente, pergunte sobre as adaptações e observe se você se sente acolhida.
Conhecer o Pilates

O Pilates é uma das atividades de que gosto e também faz parte da minha vida profissional.
Uma das minhas alunas começou depois de uma cirurgia de hérnia de disco lombar, por indicação médica. Hoje, já são mais de oito anos de prática ininterrupta, e ela é apaixonada pelo Pilates.
Nem durante a pandemia ela parou. Naquele período, fazíamos as aulas por videoconferência.
Essa é a história dela, com suas condições e seu acompanhamento. Não significa que toda pessoa com hérnia de disco deva seguir o mesmo caminho.
O que me chama a atenção é como uma prática que começou por uma necessidade passou a ser algo que ela gosta de manter na vida.
Explorar outras formas de movimento
Pedalar, nadar, fazer exercícios na água, treinar força ou participar de atividades em grupo também podem entrar nessa descoberta.
Não é necessário testar tudo. Escolha uma possibilidade que desperte interesse e que seja viável em relação a custo, deslocamento, horários e condições físicas.
A atividade mais atraente no papel pode ficar difícil de sustentar se exige uma organização impossível para a sua rotina.
O que vejo nas histórias de quem encontrou seu caminho
Tenho uma aluna que viveu com obesidade na adolescência e hoje, ao escolher se movimentar depois dos 40, é triatleta. Ela pratica porque gosta.
Uma amiga, que também viveu com obesidade, participa de um grupo de corrida de rua junto com o marido.
E há a aluna que encontrou no Pilates uma prática que mantém há mais de oito anos.
Essas histórias mostram escolhas diferentes. Não conto nenhuma delas para sugerir que alguém precise se tornar atleta, correr provas ou manter a mesma atividade para sempre.
Também não quero que o peso anterior ou atual dessas mulheres seja a medida do valor de suas experiências.
O que me interessa é o vínculo que cada uma construiu com o movimento. A modalidade passou a ter um lugar na vida delas, com motivos que vão além da obrigação de mudar a aparência.
Para uma leitora, esse lugar pode ser uma prova de corrida. Para outra, pode ser dançar duas músicas depois de um dia difícil. A comparação entre essas experiências não precisa virar uma disputa.
Como começar de um jeito que caiba na sua vida

A Organização Mundial da Saúde lembra que toda atividade física conta e que fazer alguma atividade é melhor do que nenhuma. Caminhar, dançar e outras formas de movimento podem fazer parte desse cuidado. Você pode começar dentro das suas possibilidades e avançar aos poucos.
Você pode fazer uma experiência simples nesta semana:
- Escolha uma possibilidade. Algo que desperte curiosidade, mesmo que você ainda não saiba se vai gostar.
- Defina um começo pequeno. Uma música, um trajeto curto ou uma aula experimental.
- Prepare o necessário. Espaço seguro, roupa confortável e orientação quando for pertinente.
- Observe sua experiência. O que foi agradável? O que incomodou? Você gostaria de repetir?
- Ajuste antes de aumentar. Talvez seja melhor mudar o horário, a companhia ou a intensidade.
Cinco minutos podem ser um ponto de partida para experimentar, não uma prescrição de treino nem uma meta que sirva para todas.
Se você tem uma lesão, dor persistente ou uma condição que exige adaptações, procure orientação para escolher uma forma adequada de começar ou retomar.
A minha tentativa de voltar a correr não deve virar um modelo para ninguém. Ela faz parte do que ainda estou aprendendo sobre pressa e escuta.
Prazer não significa gostar de cada minuto
Mesmo quando gostamos de uma atividade, haverá dias de pouca vontade.
Pode chover no horário da caminhada. A aula pode ser desafiadora. A rotina pode apertar. E há momentos em que precisamos descansar ou rever o que estava planejado.
Encontrar prazer não exige entusiasmo permanente. Às vezes, o que sustenta a prática é gostar do ambiente, da companhia ou da forma como aquele compromisso se encaixa na vida.
Em outros momentos, será necessário mudar.
Se você interrompeu uma atividade, pode investigar o que aconteceu sem começar pela acusação de falta de disciplina. Havia tempo? Dinheiro? Dor? Cansaço? Apoio? A proposta estava adequada?
Essas respostas ajudam mais do que repetir que basta querer.
Deixar o espelho dividir espaço com outras perguntas
Ainda estou aprendendo a não medir o movimento apenas pelo emagrecimento.
Há momentos em que essa cobrança aparece, e não quero escrever como se tivesse deixado de existir. Mas posso tentar dar espaço a outras perguntas:
Gostei de estar ali?
Respeitei o momento do meu corpo?
Consegui perceber alguma coisa além da aparência?
No parque, às vezes, a resposta está no som dos passarinhos ou no rio próximo. Com os fones, está na sensação de fazer parte de um clipe musical. Em casa, está na liberdade de dançar sem coreografia.
Não preciso transformar cada um desses momentos em uma prova de produtividade.
Talvez encontrar prazer no movimento comece assim: reconhecendo o que nos chama e permitindo que isso também tenha valor.
Qual movimento faz você querer voltar?
Você não precisa esperar emagrecer, comprar uma roupa nova ou se sentir mais confiante para explorar uma atividade.
Pode começar com curiosidade, dentro das suas possibilidades e com o cuidado de que precisa. E pode continuar aprendendo, como eu.
Que movimento você faz por prazer — ou tem vontade de experimentar? Conte nos comentários. Pode ser uma caminhada, uma dança, o Pilates ou algo que ainda nem apareceu nesta conversa.
Se você também está tentando construir uma relação mais acolhedora com o corpo, continue a leitura em “Por que não consigo aceitar meu corpo na menopausa? O pequeno gesto que mudou tudo pra mim”.

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