
O dia em que percebi que estava vivendo longe de mim mesma
O dia em que percebi que estava vivendo longe de mim mesma começou com uma pergunta da minha filha.
— Mãe, por que você só usa roupa preta?
Eu não soube responder.
Talvez pudesse ter dito que preto combina com tudo, que é prático ou que eu gostava daquela cor. Mas a pergunta ficou comigo porque, naquele momento, nenhuma dessas respostas parecia explicar completamente o que estava acontecendo.
Não era apenas sobre roupas.
Ao olhar para a minha rotina, comecei a perceber que havia deixado partes importantes de mim pelo caminho. Continuava trabalhando, cuidando da família, resolvendo problemas e atendendo às necessidades de quem estava por perto. Só que já não sabia dizer, com a mesma facilidade, do que eu gostava ou do que precisava.
Minha vida estava cheia de responsabilidades. Eu é que parecia ter cada vez menos espaço dentro dela.
Essa percepção não resolveu tudo. Mas abriu uma pergunta que eu já não conseguia ignorar: em que momento cuidar de tantas coisas tinha passado a significar cuidar tão pouco de mim?
Como fui me afastando de mim mesma
Durante muito tempo, acreditei que estava apenas fazendo o que precisava ser feito.
Eu era a mulher responsável, a que resolvia problemas, a que evitava conflitos e a que procurava estar disponível. Aprendi desde cedo a não incomodar e fui levando essa ideia para diferentes áreas da vida.
Pedir ajuda era difícil. Expressar um incômodo também. Muitas vezes, dizer “sim” parecia mais simples do que explicar por que eu precisava dizer “não”.
Nem sempre isso vinha de uma escolha tranquila. Havia momentos em que eu concordava para não decepcionar, para não criar uma discussão ou porque achava que a minha necessidade podia esperar mais um pouco.
E ela esperava.
O descanso ficava para depois. Um desejo pessoal ficava para depois. Uma conversa importante comigo mesma ficava para depois.
Não considero que cada concessão tenha sido um erro. A vida exige ajustes, e cuidar das pessoas que amamos faz parte dela. O que comecei a questionar foi a frequência com que só o meu lado precisava ceder.
Aos poucos, deixei de perguntar o que queria. Passei a procurar primeiro o que seria mais conveniente para todos.
Quando percebi, essa forma de viver já parecia normal.
Os sinais que hoje consigo reconhecer
Olhando para trás, consigo enxergar situações que, naquela época, eu não sabia compreender.
Não eram provas de que eu tinha fracassado. Eram aspectos da minha experiência que mereciam atenção e que eu vinha deixando de lado.
Eu cumpria tarefas, mas sentia pouco entusiasmo
Havia dias em que eu simplesmente seguia a rotina. Fazia o que precisava, atendia às demandas e chegava ao fim do dia sem sentir que tinha vivido alguma coisa para mim.
Era difícil reconhecer o que me animava. Eu estava ocupada, mas estar ocupada não significava estar satisfeita.
A comida havia se tornado uma forma de acolhimento
Em alguns momentos, comer era uma maneira de encontrar conforto. Hoje consigo olhar para isso com mais gentileza, sem transformar cada episódio em motivo de culpa.
Naquela época, eu nem sempre conseguia nomear o que sentia ou perceber do que precisava. A comida estava ali, acessível, oferecendo uma pausa.
Entender essa relação fez parte de aprender a me observar melhor.
Eu evitava olhar para o meu corpo
Cheguei a pesar 82 quilos e fui me afastando do espelho.
O número, sozinho, não explica aquela fase. O que mais me incomodava era a forma como eu me tratava: olhava para mim com cobrança ou evitava olhar para não lidar com o desconforto.
Eu tinha dificuldade de reconhecer meu corpo como alguém que merecia cuidado naquele momento, sem precisar primeiro mudar de aparência.
Minhas roupas já não expressavam o que eu gostava
O conforto era importante e continua sendo. Mas percebi que minhas escolhas estavam ficando limitadas ao que ajudava a passar despercebida.
As cores foram desaparecendo. Junto delas, fui deixando de experimentar, de escolher com prazer e de prestar atenção ao que me fazia sentir bem.
O que a pergunta sobre as roupas pretas me mostrou
Usar preto não significa estar triste, ter baixa autoestima ou querer se esconder. Para muitas mulheres, é simplesmente uma preferência.
Na minha história, porém, aquela pergunta me ajudou a perceber algo que ia além da cor.
Eu não queria chamar atenção. Não queria ser vista. Havia uma dificuldade em ocupar espaço e em reconhecer que minhas vontades também podiam fazer parte das decisões.
Comecei a olhar para a mulher que existia por trás das funções que eu exercia.
Eu era mãe, esposa, profissional, filha. Todos esses lugares faziam parte da minha história. Mas não respondiam, sozinhos, à pergunta sobre quem eu era.
Do que eu gostava naquele momento da vida? O que fazia porque queria? O que continuava fazendo apenas por hábito ou por receio de desagradar?
As respostas não vieram imediatamente.
Primeiro veio o desconforto de perceber que eu conhecia bem as necessidades de outras pessoas, mas precisava de tempo para reconhecer as minhas.
Depois dos 40, comecei a olhar para a minha vida com outras perguntas
Chegar a essa fase da vida me fez olhar de novo para escolhas que eu vinha repetindo havia anos.
Não porque exista uma idade certa para se reencontrar. Mas porque, na minha trajetória, foi nesse período que algumas perguntas ganharam espaço.
Eu ainda queria as mesmas coisas? Continuava concordando com tudo aquilo que aceitava? Que desejos tinham ficado guardados enquanto eu tentava dar conta da vida?
Percebi que não precisava recuperar exatamente a mulher que tinha sido antes.
A mulher de hoje viveu outras experiências. Tem outras responsabilidades, outros limites e outras possibilidades. Algumas preferências mudaram, e isso também merece respeito.
Meu reencontro não precisava ser uma tentativa de voltar no tempo. Podia começar conhecendo quem eu estava me tornando.
Essa ideia me trouxe algum alívio. Eu não precisava ter um plano completo para os próximos anos. Precisava começar a participar mais das escolhas do presente.
Como comecei a voltar para mim mesma
A mudança aconteceu aos poucos.
Passei a cuidar mais de mim, retomei os exercícios com regularidade e comecei a prestar atenção aos meus desejos e necessidades.
Cuidar de mim também passou a incluir atenção ao meu bem-estar emocional. A Organização Mundial da Saúde explica que a saúde mental envolve a capacidade de lidar com os desafios da vida, desenvolver nossas habilidades e participar da comunidade. Essa compreensão amplia o olhar para o cuidado: além de cumprir responsabilidades, existe espaço para reconhecer como estamos vivendo e do que precisamos.
Também fui aprendendo a desfrutar da minha companhia. Descobri prazeres que antes não havia me permitido experimentar e comecei a reconhecer que nem tudo precisava depender da aprovação de alguém.
Ainda assim, esse processo teve desconfortos.
Quando passamos muito tempo deixando nossas necessidades para depois, considerá-las pode parecer estranho. Às vezes, até uma escolha pequena vem acompanhada de culpa.
O que me ajudou foi começar com atitudes que cabiam na minha realidade.
Perguntar o que eu realmente queria
Antes de concordar automaticamente, comecei a perceber a diferença entre querer fazer alguma coisa e sentir que precisava fazê-la para agradar.
Nem sempre era possível escolher o que eu preferia. Mas reconhecer minha vontade já fazia diferença: ela deixava de ser invisível para mim.
Incluir meu cuidado na rotina
Retomar os exercícios foi uma parte importante desse caminho.
Também comecei a olhar para outras necessidades, como descanso, tempo pessoal e atividades que me davam prazer. Não era preciso transformar cada cuidado em uma grande tarefa. Eu precisava encontrar espaço para me considerar na vida que já tinha.
Aprender a estar comigo
Fui descobrindo que minha companhia podia ser agradável.
Isso não eliminou a vontade de compartilhar a vida com outras pessoas. Apenas me ajudou a construir uma relação comigo mesma que também tinha valor.
Expressar meus limites
Aprender a dizer “não” foi uma das mudanças mais difíceis.
Comecei a entender que poderia ser respeitosa e, ainda assim, discordar. Poderia gostar de alguém e não estar disponível naquele momento. Poderia ouvir uma necessidade sem assumir sozinha a responsabilidade de resolvê-la.
Essas mudanças continuam sendo um aprendizado.
Os limites que estou aprendendo a preservar
Hoje procuro reconhecer mais cedo quando estou me colocando sempre em segundo plano.
Quero relações em que também exista espaço para o que sinto. Quero poder conversar sobre um incômodo sem precisar escondê-lo apenas para manter tudo aparentemente bem.
Estou aprendendo a distinguir o que posso oferecer daquilo que ultrapassa meus limites. A ajudar sem assumir todas as responsabilidades. A cuidar dos vínculos sem me abandonar dentro deles.
Isso não significa que eu consiga agir assim em todas as situações.
Ainda há momentos em que aceito algo e depois percebo que precisava ter recusado. Ainda existem conversas difíceis e hábitos antigos que reaparecem.
A diferença é que hoje tento prestar atenção e corrigir o caminho.
Meus “sins” também passaram a ter mais sentido quando deixaram de ser a única resposta possível.
Uma pergunta para começar o seu próprio reencontro
Talvez você tenha se reconhecido em alguma parte dessa história.
Se isso aconteceu, não precisa encontrar todas as respostas agora. Pode começar escolhendo uma pergunta e dando a ela um pouco de atenção:
- O que tenho adiado repetidamente, embora seja importante para mim?
- Quando digo “tanto faz”, realmente não tenho preferência?
- Que atividade gostaria de retomar?
- Em quais situações concordo por medo de decepcionar?
- Qual cuidado consigo incluir na minha semana?
Essas perguntas são convites à reflexão. Você não precisa respondê-las perfeitamente nem transformar tudo em uma cobrança a mais.
Também vale considerar as condições concretas da sua vida. Tempo, dinheiro, trabalho e responsabilidades familiares influenciam nossas possibilidades. Reconhecer uma necessidade não significa conseguir atendê-la imediatamente.
Às vezes, o primeiro passo possível é conversar, pedir ajuda ou deixar de tratar o próprio desejo como algo sem importância.
Viver mais perto de mim continua sendo uma escolha diária
Ainda existem desafios e dias difíceis.
O autoconhecimento não resolveu todos os meus problemas. Mas me ajudou a perceber quando estou me afastando de mim e a procurar formas de voltar.
Hoje tento lembrar que sou mais do que os papéis que desempenho. Posso cuidar de quem amo e também reconhecer o que preciso. Posso mudar de ideia. Posso descobrir novos interesses sem desmerecer a história que vivi até aqui.
É dessa experiência que nasce o Fase Plena: da vontade de compartilhar reflexões sobre o corpo, o cuidado e a vida depois dos 40, com acolhimento e espaço para histórias reais.
Não escrevo porque tenho tudo resolvido. Escrevo porque estou vivendo esse caminho e sei o quanto pode fazer diferença encontrar palavras para algo que antes parecia difícil de explicar.
Se você deseja continuar essa reflexão, conheça também o meu guia gratuito, disponível aqui no Fase Plena.
Talvez, na sua história, o começo seja uma conversa, uma preferência esquecida ou a vontade de fazer algo que ficou para depois.
Na minha, começou com uma pergunta da minha filha:
— Mãe, por que você só usa roupa preta?
Hoje entendo por que aquela pergunta ficou comigo.
Ela me fez olhar para algo que eu vinha deixando de perceber: eu também precisava ter espaço na minha própria vida.
E você: em que momento percebeu que precisava voltar a prestar atenção em si mesma? Se quiser, compartilhe nos comentários.

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