
Por que não consigo aceitar meu corpo na menopausa? O pequeno gesto que mudou tudo pra mim
Durante muito tempo, eu olhava no espelho e já sabia o que procurar.
A barriga. A pele. Aquela parte do corpo que parecia diferente nas fotos. Sempre tinha alguma coisa que precisava melhorar antes que eu pudesse me sentir bem comigo mesma.
E eu acreditava nisso: quando conseguisse mudar o que me incomodava, finalmente ficaria satisfeita.
Só que a lista nunca acabava.
Hoje, quando penso na dificuldade de aceitar meu corpo na menopausa, percebo que havia mais coisas envolvidas do que as mudanças da aparência. Havia a forma como eu me cobrava, as comparações e a ideia de que precisava continuar parecendo com uma versão minha que já tinha ficado para trás.
O pequeno gesto que começou a mudar essa relação foi procurar uma qualidade antes de procurar um defeito no espelho.
Parece simples. Para mim, não foi.
Esse gesto fazia parte de uma decisão maior: começar a cuidar de mim do jeito que eu estava, sem esperar primeiro gostar de tudo o que via.
Eu sabia cuidar do corpo. Mas tinha dificuldade de cuidar de mim sem cobrança
Sou fisioterapeuta. Conheço a importância do movimento e incentivo outras mulheres a se cuidarem.
Mesmo assim, esse conhecimento não me impedia de ser dura comigo.
Eu podia reconhecer o esforço de uma aluna, valorizar uma pequena conquista dela e entender que cada corpo tem seu tempo. Mas, quando o assunto era o meu corpo, a conversa mudava.
Eu queria resultado. Queria olhar e gostar. Queria que a roupa vestisse de outro jeito e que as fotos mostrassem a mulher que eu imaginava ser.
Talvez você conheça essa sensação: a gente se arruma, acha que está bem, mas vê uma foto e começa a reparar em tudo.
Foi assim comigo muitas vezes.
Hoje percebo que eu estava colocando uma condição para me aceitar. Precisava emagrecer, melhorar a pele, mudar alguma coisa. Só depois poderia relaxar um pouco.
Enquanto isso, meu corpo continuava vivendo. E eu continuava olhando para ele como se estivesse sempre devendo.
O câncer de mama me fez olhar para o corpo de outra maneira
Uma experiência que marcou profundamente essa relação foi o diagnóstico de câncer de mama.
Quando surgiu a possibilidade de perder um dos seios, senti medo. Graças a Deus, isso não aconteceu.
Mas aquela possibilidade ficou comigo.
Passei tanto tempo reparando no que não gostava que quase nunca parava para reconhecer o corpo que eu tinha. Era como se tudo o que ele fazia por mim fosse uma obrigação, e só os detalhes que me incomodavam merecessem atenção.
O diagnóstico me fez enxergar isso.
Não vou dizer que, depois daquele momento, passei a me amar completamente. Não aconteceu assim. Continuaram existindo inseguranças, incômodos e dias em que o espelho era difícil.
Também não acho que uma mulher precise sentir gratidão o tempo inteiro porque passou por uma doença. É possível agradecer pela vida e continuar tendo sentimentos difíceis sobre o próprio corpo.
Na minha história, aquela experiência abriu uma reflexão. A mudança na forma de me tratar foi sendo construída aos poucos.
O divórcio também trouxe perguntas sobre como eu me via
O divórcio mexeu com outras inseguranças.
Será que ainda sou atraente? Será que ainda sou desejável? Como vou me sentir nessa nova fase?
Essas perguntas se juntaram às que eu já carregava.
Eu queria me sentir bonita, mas também queria me reconhecer. Entender quem eu era naquele momento, depois de tantas experiências e mudanças.
E havia uma tentação de colocar toda essa resposta na aparência: se eu melhorasse o corpo, talvez me sentisse mais segura para recomeçar.
Hoje vejo que meu corpo não poderia resolver sozinho tudo o que eu estava sentindo.
Havia questões que precisavam de conversa, de tempo e de um olhar mais cuidadoso para mim. Na terapia, comecei a perceber melhor essa diferença.
Eu podia continuar querendo mudar algumas coisas na aparência. Mas precisava parar de fazer disso uma condição para me considerar suficiente.
A terapia me ajudou a mudar a pergunta
Antes, minha pergunta era quase sempre:
“O que preciso consertar?”
Aos poucos, fui aprendendo a perguntar:
“Como posso cuidar de mim agora?”
Essa troca parece pequena quando a gente escreve. Na prática, ela mexeu com muita coisa.
Continuo cuidando da pele. Continuo fazendo exercícios e querendo envelhecer com saúde. Também continuo gostando de me sentir bonita.
O que mudou foi a tentativa de fazer tudo isso com menos agressividade comigo mesma.
Eu não precisava me olhar com desprezo para ter vontade de me cuidar. Podia reconhecer um incômodo sem transformar meu corpo inteiro em um problema.
Também não precisava achar tudo lindo todos os dias.
Em alguns momentos, aceitar significava apenas parar de me atacar. Vestir uma roupa confortável, sair e viver o dia sem ficar me avaliando o tempo inteiro.
O pequeno gesto: procurar uma qualidade antes de procurar um defeito

Eu já tinha o hábito de procurar defeitos. Não precisava fazer esforço para isso.
Então comecei a tentar outro caminho: antes de apontar alguma coisa que me incomodava, procurar uma qualidade. Só uma.
Não precisava ser uma grande declaração de amor ao corpo. Nem uma frase bonita que eu não conseguia sentir.
Podia ser algo simples que eu realmente reconhecesse.
E, quando era difícil encontrar alguma coisa na aparência, eu podia lembrar de uma capacidade: um movimento que estava mais fácil, uma tarefa que conseguia fazer, um cuidado que tinha conseguido manter.
Esse gesto não apagou minhas inseguranças. Mas começou a interromper uma conversa que, antes, era feita quase só de críticas.
Eu estava aprendendo a falar comigo de outro jeito.
A decisão de não me abandonar foi ganhando forma nessas pequenas atitudes. Não como uma promessa de nunca mais ter um dia ruim, mas como a possibilidade de voltar ao cuidado quando a cobrança aparecesse.
O movimento me ajudou a perceber mais do que a aparência

No estúdio, já ouvi muitas vezes uma aluna olhar para outra e dizer:
“Nossa, queria conseguir fazer igual a ela.”
Durante muito tempo, eu respondia apenas: “Não se compare.”
Mas essa frase, sozinha, nem sempre ajuda. A comparação aparece antes de a gente perceber.
Comecei a pensar em uma referência mais útil: o que eu consigo fazer hoje que estava difícil antes?
Na minha própria experiência, levantar a perna com mais facilidade para me vestir em pé passou a ter valor. Era uma conquista concreta, que fazia diferença na minha rotina.
Ela não aparecia numa foto. Mas eu sentia.
Isso foi me ajudando a olhar para o corpo além da forma. A perceber força, mobilidade e possibilidades que eu deixava de enxergar quando estava preocupada apenas com a aparência.
Há benefícios de saúde bem estabelecidos nesse cuidado: a Organização Mundial da Saúde explica que a atividade física regular beneficia a saúde física e mental e pode melhorar o sono.
Essa informação sustenta a importância do movimento. Já a maneira como ele participou do meu reencontro comigo mesma é uma experiência pessoal.
Entender as mudanças também me ajuda a diminuir a cobrança
Quando não entendemos o que está acontecendo, é fácil interpretar qualquer mudança como descuido.
Mas olhar para o corpo com atenção inclui procurar informação e acompanhamento. Não preciso escolher entre me aceitar e investigar algo que está me incomodando.
No artigo Por que a menopausa muda tanto o nosso corpo?, explico o papel das mudanças hormonais e por que nem tudo o que aparece nessa fase deve ser atribuído à menopausa.
Para mim, compreender o corpo ajuda a fazer perguntas melhores. Em vez de concluir que falhei, posso procurar saber do que preciso.
E isso vale também para o sofrimento com a aparência. Se ele começa a ocupar espaço demais, atrapalhar a rotina ou fazer a gente evitar situações importantes, merece ser levado a uma conversa com um profissional.
Pedir ajuda também é cuidado.
Três práticas para começar sem transformar isso em mais uma obrigação
Quero compartilhar o que fez sentido para mim. Você pode experimentar e perceber o que cabe na sua realidade.
1. Escolha um cuidado possível para hoje
Pode ser uma caminhada curta, um alongamento adequado às suas condições ou uma refeição preparada com mais atenção.
Não precisa virar um projeto enorme.
Escolha alguma coisa que você consiga fazer sem usar o cuidado como castigo pelo que comeu ou pela aparência que tem.
2. Procure uma qualidade antes da crítica
Se olhar no espelho fizer sentido para você, tente reconhecer uma coisa de que gosta antes de começar a lista do que deseja mudar.
Se isso estiver difícil, não precisa forçar um elogio.
Uma frase mais neutra também pode ser um começo: “Meu corpo está diferente, e eu posso cuidar dele hoje.”
3. Retome quando precisar
Nem todos os dias vão ser iguais.
Pode haver um dia em que você se sente bem e outro em que uma roupa, uma foto ou um comentário mexe com tudo de novo.
Isso não apaga o que já construiu.
Em vez de exigir uma mudança definitiva, tente perceber como pode voltar ao cuidado naquele dia.
Aceitar meu corpo não significa gostar de tudo nele
Essa foi uma das coisas que precisei aprender.
Posso desejar uma mudança e ainda me tratar com respeito. Posso querer melhorar a força ou mudar um hábito sem adiar minha vida até chegar a um resultado.
O que eu não quero mais é passar o tempo inteiro esperando ficar pronta.
Pronta para uma foto. Para uma roupa. Para me sentir bonita. Para permitir que alguém me veja.
Não quero que os próximos anos sejam apenas uma espera por um corpo que considero mais aceitável.
Tenho uma vida acontecendo agora.
E quero participar dela com o corpo que tenho hoje, enquanto continuo cuidando de mim.
Um caminho de volta para mim mesma
Essa reflexão também conversa com o que contei em O dia em que percebi que estava vivendo longe de mim mesma.
Naquele relato, uma pergunta da minha filha me fez prestar atenção em partes minhas que eu vinha deixando para depois.
Aqui, o espelho trouxe outra pergunta: por que eu conseguia ser tão compreensiva com outras pessoas e tão exigente comigo?
Se você deseja continuar essa reflexão, conheça também meu guia gratuito de reconexão e autocuidado, disponível aqui no site.
O que eu diria para a Viviane de alguns anos atrás
Eu diria para ela não esperar alcançar um peso, melhorar a pele ou se sentir completamente segura para começar a se tratar com carinho.
Diria que ela podia querer mudanças. Mas que também merecia cuidado durante o caminho.
Hoje ainda estou aprendendo.
Não escrevo isso como alguém que resolveu todas as questões com a aparência. Escrevo como uma mulher que conhece essa cobrança e está tentando viver de outro jeito.
O pequeno gesto no espelho não mudou tudo de uma vez. Ele começou a mudar a forma como eu me dirigia a mim mesma.
E, para mim, isso fez diferença.
Talvez hoje você também consiga escolher um cuidado possível. Sem a obrigação de amar cada detalhe. Apenas reconhecendo que merece atenção agora.
E você: consegue perceber alguma qualidade antes de procurar o que deseja mudar? Se quiser, me conte nos comentários. Vou adorar ler e saber mais sobre você.
